O dia em que virei escrava do meu celular

Nasci em 1991. Minha geração praticamente viu a tecnologia passar de “luxo” para “essencial”.
Quer dizer, o primeiro computador que apareceu aqui em casa foi um que meu pai trouxe da empresa onde ele trabalhava, pois o pessoal lá ia descartar. Ele pediu permissão, e trouxe. Era o máximo: só o que dava pra fazer era jogar Socoban e Tetris, mas era demais.
Pouco tempo depois, apareceu a internet – limitada aos finais de semana e da meia noite às seis. Depois, o Google. Depois, todo mundo passou a ter celular. E depois, celular que tira foto (!!!). Depois, internet. E aí, já era.

Hoje, ter um celular que tem todas as funções acima citadas e ainda faz ligações (serviço que já é praticamente dispensável) causou no mundo o que todo mundo já sabe: as pessoas só se conversam pelo celular – e ele se tornou também uma desculpa para não se relacionar com ninguém. O tal do tímido está salvo: pode ir na festa e não interagir com nenhum dos presentes; ele pode só ficar lá, olhando a timeline do facebook… E ninguém acha nem estranho.

É engraçado como eu fico irritada ao ver isto acontecendo, ao passo que eu mesma, muitas vezes, sou aquela pessoa que está na festa, mexendo no celular. A diversão do grupo de amigos é, ao invés de jogar papo fora, tomando cerveja e dando risada, é ficar em volta de um celular, vendo um vídeo (normalmente cujo protagonista é um gato) e dando risada (que morre em poucos segundos. Encontre logo outro vídeo de gato, ou saia do círculo sem assunto).

E tem mais: hoje, ninguém mais tem dúvida de nada. É possível saber de absolutamente tudo instantaneamente: Vide exemplo:
– Cara, viu aquele filme novo que saiu no cinema?
– Putz, cara, não vi ainda. É bom?
– É ótimo! É com aquele ator, o Brad Pitt.
– Puxa.. Sabe que agora eu não estou lembrando quem ele é? Me deu um branco!!
E pá! Na mesma hora, o primeiro cara já tem milhares de fotos do Brad Pitt disponíveis online para que o outro possa refrescar a memória e… O assunto morre. Em 1990, era preciso longos minutos de conversa para que nos lembrássemos de um filme, que vimos anos atrás e que por acaso tinha o tal do Brad Pitt (já tinha filmes dele em 1990? Vou ver aqui no meu celular).

Não temos mais o benefício da dúvida. Não podemos mais errar… Se deixamos escapar que o sapatinho da Dorothy era azul, na mesma hora tem 10 celulares na sua frente para te provar que era vermelho. Se temos problemas em lembrar em que ilha Napoleão foi exilado, nada de pensar: a resposta está a um slide to unlock de distância. E sinceramente… Isso é meio chato.

E o pior foi descobrir que a pessoa chata com o celular na mão… Sou eu.
No momento desta epifania, quase tive uma crise: quis sair das redes sociais, sair do Whatsapp, jogar meu celular fora… E aí me toquei de outra coisa pior ainda: não estar nas redes sociais, em 2016, é como não existir (como vou me comunicar com as pessoas? Como vou divulgar meu trabalho profissional?). Sair de um grupo de conversa é como declarar fim de amizade aos outros integrantes. Não, as redes ficam. O que deve mudar é o meu comportamento em relação a elas.

Algum dia voltaremos às longas e boas conversas que as pessoas tinham antes do celular? Vejam bem: não sou contra o avanço da tecnologia, mas sou contra o retrocesso das interações pessoais. Quantas vezes nos escondemos de conhecidos (vistos de relance pela rua, pelo metrô), para podermos ficar vendo seja lá o que for no celular?
E quando temos um contato qualquer, com quem temos conversas deliciosas online e, quando encontramos pessoalmente, só conseguimos falar da droga do vídeo do gato que compartilhamos numa conversa?

Minha resolução de hoje é: menos celular, mais cerveja, mais papo sobre filmes (sem google para dar as respostas), mais risadas sinceras e, principalmente, mais momentos, mais amigos. Crie mais intimidade com as pessoas pessoalmente. Declare seu amor, olho no olho. Se for para declarar seu ódio, que seja cara a cara também, e não com indiretinha pelo facebook… E permita-se deixar o celular em casa só uma vez. Acredite: você vai sobreviver.

Liberte-se do celular. Não dependa da sua limitada bateria para poder manter uma conversa. Deixe de lado o papinho de “introvertido” e faça amizades. Lembre-se sempre: o dono do seu celular é você. Não deixe que seja o contrário!

 

 

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